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Boa Mãe

  • Posted on:  Sexta, 19 Fevereiro 2016 19:56
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Ela teve coragem de perguntar: "Você acha que eu sou boa mãe?". Somos muito amigas, seus olhos brilhavam um pouco, e num show de honestidade, querendo mesmo saber, ela perguntou o que eu sempre quis perguntar, mas nunca consegui fazê­ lo assim, tão claramente. Quando meus filhos eram pequenos, tudo o que eu queria era uma confirmação, alguma certeza de que eu estava no caminho certo no meio daquele mar de dúvidas que me atormentavam. Respondi: "Você é ótima mãe.

Mas não se iluda: faz parte de toda boa mãe o sentimento de ser uma péssima mãe".

Minha amiga é mesmo uma mãe excelente. Quem não convive com ela pode ver isso na cara e no jeito de sua pequena. Mas não adianta, ser mãe é ter a sensação perene de que alguma coisa lhe escapa. É bamba, é sutil. São muitas questões, e não tem manual, não tem garantia. Eu morria de culpa por cada assadura e a coisa mais certa que eu ouvia era: "Siga a sua intuição". Intuição é a segurança máxima que uma mãe pode ter, mas, vamos combinar, coisinha difícil é saber definir se um sentimento é ou não intuição. Ainda mais em meio a berreiros de cólica, noites mal dormidas e dúvidas entre o que diz o pediatra ou sua cunhada. Nos xeques­mates da maternidade, há que ter intuição para saber o que é intuição.

Mas o tempo passa e um dia você começa a ganhar uns bilhetinhos com letras garranchudas: "Para a melhor mãe do mundo". Você chega quase a acreditar que está indo bem. Esses papeizinhos viram seus certificados, suas tão almejadas medalhas garantindo algum número de pontos. Mas outros dias amanhecem, algumas portas batem, vem um "você é chata, só reclama!"...”Para de me tratar como criança!”, seu coração aperta e você cai no limbo de novo. Há que ter a autoestima muito inflada para passar imune às chibatadas da síndrome de boa mãe.

E se há coisa certa nesta trajetória é que não há o certo, que a perfeição é mesmo uma utopia.

Meus filhos cresceram e aos poucos fui me livrando do fardo de tentar ser a melhor mãe do mundo para ser só a melhor mãe que pude ser. Não ganhei o certificado, não consegui ser condecorada por Nossa Senhora. Acostumei­me ao imperfeito e deixei o amor fluir sereno pelos meus dias de altos e baixos. A medalha chega mesmo no dia que um filho seu lhe dá uma dica de total reconhecimento. Mas um reconhecimento real. Ele te olha e te reconhece como mãe dele, a única possível, a que lhe foi designada. Basta um olhar para se reconhecerem...e olha como se já estivessem previstos nessa configuração mãe e filho. Essa sensação, essa epifania, mesmo que por minutos, enche seu peito de medalhas.

Fonte: Revista Crescer. Escrito por Denise Fraga.

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